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terça-feira, 5 de agosto de 2008

Estrelas do Jequi

Era uma casa simples de chão batido e sem forro no teto. Senti na pele uma mudança compulsória, mas passado o susto da diferença, tomei a como minha rapidamente. Era uma casa especial e me dava, quase todas as noites, a sensação de mergulho no silêncio de uma imensidão escura com pontos brilhantes.
Caía a noite seguida do crepúsculo mais bonito que eu havia visto. Mistura de cores. Pintura divina e algo mais próximo do que imaginava ser a perfeição.
Nesse dia não fui ver o céu, até que no silêncio de uma leitura, ouvi uma voz aguda que gritava insistentemente um beabá.Uma professorinha. E ela gritava para os alunos que todas as noites iam ao cercado de madeira, porta dividida ao meio, tramela na janela aberta, única luz que eu avistava. Ainda que a voz fosse um grito, não tinha curiosidade maior. Bê com áaaaa: Báaaaaaaaaaaaaaaa.
Sob luz fraca, os alunos eram velhos atentos, inseguros com o lápis nas mãos, trêmulos, traçando primeiras letras de um caminho com a mesma escuridão do infinito. Mas como no caminho, estavam debaixo de um céu inesquecível, magnífico, de pequenas estrelas brilhantes e poeira estelar. Um manto que os cobria, a minha casa e a mim. Tenho medo de esquecer aquele céu. Por isso o fiz colorido em meus ombros, até hoje e para sempre.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Enxergar, ver e olhar.

(Escrito em Valadares, março de 2007)

As vezes tenho vontade incontrolável de ver além. Quem dera uma “espada justiceira com visão além do alcance”. Mas tranqüilidade me parece ser a visão do que nos é possível, exercício de paciência pra quem escuta além do alcance.

De tanto querer ver, encontro meu sossego na imagem congelada do outro que a minha máquina fotográfica captura. As minhas lentes são as conjuntivas do meu olhar, que pesca o outro que se faz em mim. Retrato o meu olhar, no outro.

Em Pedra Corrida, faço o exercício desse olhar. Num primeiro momento vejo, depois enxergo e por fim olho. Vêm à minha cabeça palavras de um texto do Freud: Necessidade, demanda e desejo. Tríade importante das nossas vidas. Faço analogia... Ver é uma necessidade fisiológica, coisa que nos permite captar o externo. Enxergar é um pouco mais que ver, é aquela visão de quem está procurando alguma coisa especifica no meio de tantas outras e por fim vem o olhar. Esse não é da ordem da fisiologia, não é da ordem da necessidade, nem da demanda de enxergar. O olhar é da ordem do desejo, particular e subjetivo de cada um. O olhar é seguido do que o nosso desejo desperta, em nós e no outro. E apesar de ter a necessidade de ver, e a demanda de enxergar, faço valer o meu olhar pelas lentes do meu desejo. É aquilo que só associado à palavra viva descreve o que ele diz. Palavra viva é aquela proferida da verdade de cada um.

De uma cadeira de Pedra Corrida vejo uma porta, enxergo um lugar e olho as pessoas. Vejo a menina que foi amassada por um carro, enxergo o pânico e olho a vontade dela em viver, amarrando os significantes que a compõe, tão pequena ainda. Ela me diz em uma brincadeira: "cuidado! Cuidado com o carro rápido na rua! Faz cicatriz na cabeça!" Essa mesma menina cai da bicicleta, vê o joelho ralado, ensaia um choro, vira para um lado, para o outro e olha pra ela mesma. Rapidamente, monta na bicicleta e sai andando com partes tortas, tremendo as mãozinhas no guidão. Eu vibro, silenciosamente no meu canto. Ainda que ela tenha medo, ela caminha... pequena guerreira, pequena e grande menina.

sábado, 26 de julho de 2008

Pedra Corrida



Este é o Emanuel, um garoto que por quase um ano foi a luz do meu dia em Pedra Corrida - Governador Valadares, um dos povoados que já trabalhei. Com esse sorriso ele vinha me contar do seu cotidiano, nada fácil. Brincava comigo e dava gargalhadas do meu "jeito de falar estranho". Eu poderia estar na tampa do stress num dia, mas quando ele chegava tudo ficava mais fácil. Emanuel queria me mostrar tudo: a escola dele, o pai, a mãe, o irmão pestinha, a pedra na rua, o carrinho velho, a bicicleta e o desenho novo. Cada mostra uma história que ele mesmo produzia fazendo qualquer coração de pedra balançar. Coração de Pedra. Coração de Pedra Corrida. Eu saí de lá, mas "lá" não saiu de mim ainda.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Extinção


Quase tudo nesta foto foi extinto. O caminho está sob metros e metros d'água, não existe mais e o carro eu bati num poste e também não existe mais. Restou eu, com as lembranças de um tempo difícil e feliz. Tempo de viver e principalmente sobreviver. Cada manhã um desafio físico e inesperado, dias que não tinham como ser iguais. Cansada, recebia de presente um crepúsculo e o laranja do céu que estrelava mais tarde. Mirava até onde a água chegaria um dia e pensava somente em dormir. No silêncio ouvia bichos indecifráveis, criaturas desconhecidas que vinham abrigar na luz da minha choupana. Aceitava dividir o espaço, afinal de contas eu havia invadido o espaço que era deles. Não consigo entender a saudade que eu sinto de toda aquela dificuldade, daquele lugar perdido e distante. Um tempo de extrema solidão e companhia de mim mesma, mas que me surpreendia pelo modo de vida simples e desengonçado de toda aquela gente que também sobreviveu à água e paradoxalmente à falta dela. Seca, terra rachada, pés descalços e poeira nos joelhos. O céu estrelado me bastava para querer ver um outro dia nascer.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Diariamente

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Existem coisas que ainda que as repita em outro tempo, não fazem o mesmo sentido. Mas há sempre a possibilidade de relembrar de um jeito diferente a lembrança boa do que passou. Ainda que não volte, chega um momento que esse traço deixa de ser dor e vira saudade, que pode doer ou não. "Diariamente" retratava meus dias num lugar que tinha paixão e amor misturados. Lugar que quando pisava na terra, acontecia tudo que era magia dentro de mim. Encontro com a virtude mais difícil de encontrarmos, segundo os filósofos: A Simplicidade. Hoje encontrei perdido nas minhas coisas um cartão que eu mesma comprei pra mim escrito " Sejam simples", e nele uma formiga com uma palha na boca e uma minhoca com chapéu de campo. Nasci na cidade grande, mas a primeira vez que pisei nesse lugar, que encontrei pessoas que não se importavam com a roupa que eu estaria usando e nem se eu tinha cara ou não de psicóloga, me encontrei, de certa maneira. "Diariamente" retrata isso e muito mais. Fala de momentos inesquecíveis, simples, como tomar banhos deixando a água se misturar com os sonhos. Escrevo agora e relembro com uma vontadezinha de chorar, mas em pouco tempo isso vai ser motivo de rir ao lembrar de uma parte da minha vida que se foi por motivo compulsório, não por escolha minha. Se há agora um desejo realmente verdadeiro em mim, é o de que eu possa não me petrificar com tudo que me aconteceu e continuar reconhecendo o valor da simplicidade nas coisas e pessoas. Diariamente...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Relembrar

Hoje fui à uma missa de formatura. Revivi o meu momento, há cinco anos atrás. Lembrei do sabor da conquista, da felicidade por ter conseguido até alí, do choro dos meus pais, dos abraços recebidos, da promessa de fazer um País mais justo com o que aprendi e principalmente do desejo de resgatar as pessoas dos seus próprios fantasmas para o conhecimento dos seus próprios desejos.
Acho a minha profissão uma das mais bonitas do mundo. Primeiro porque não foi fácil esquecer tudo que aprendi na vida para compreender a lógica da mente; Segundo que poder ajudar alguém a ter outro olhar sobre o seu olhar das coisas, é satisfação infinita.
Depois de cinco anos, vi que não deixei de lado o que aprendi nem na faculdade, nem na vida. Esse equilíbrio me faz ter os pés no chão e ao mesmo tempo desgrudá-los desse lugar quando tudo está numa realidade real por demais. O meu voar é escrever. Na escrita posso ser tudo, até Psicóloga de mim mesma.

domingo, 22 de junho de 2008

Nossa Senhora do Rosário

Amanhã é o dia de Nossa Senhora do Rosário. A protetora que escolhi pra minha vida. Mãe dos homens pretos, do congado, dos catopês, pobres e simples. A festa do Rosário é uma das minhas paixões. A igrejinha azul, as bandeirinhas, o mastro e a dança dos negros, tudo me emociona. No ano passado estava na festa. Foi um dia emocionante e muito feliz. Decidi-me casar numa igreja do Rosário, com vestido simples e fitas coloridas no cabelo. Sonho que durou menos de um ano. Menos que uma festa do Rosário.
Minha vontade é reviver aquela festa, aquela emoção e aquelas pessoas com uma fé imensa e firme. Entraria no rio dessa vez, de roupa e tudo e pegaria nela, afim de pedir-lhe que cuidasse de mim... Ainda lembro daquele sino na mão da velha, dos reis e rainhas pretos, dos fogos de artifício. Saudade do tempo que o que assustava era fogo no céu. Mãe do Rosário, cuida de mim.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Primavera

Pela primeira vez, senti a primavera reinando sozinha com todas as cores e movimentos que lhe pertencem. Não sei se consigo expressar aqui o que ela me transmitiu: Êxtase de vento acariciando seus cabelos sob um frio manso com sol de montanha que aquece sem esquentar.
Naquele dia na Alemanha, aconteceu algo que é maior que ver a primavera: senti-la, como eu em você e você em mim... Dentes-de-leão voavam em quantidade enorme por todo o parque e pessoas andavam dentro do cenário dividindo espaço com as cestas de flores azuis nas bicicletas. Parei um momento e agradeci a Deus, à vida e ao universo por aquele momento: mágico, único e meu. Quando me dei por totalmente agraciada de tudo eis que surge uma gaita escocesa tocando a música daqueles dias só para mim. Música que eu havia escutado assim, coincidentemente, em todos os lugares que eu pisei fora do meu País. Se abir os olhos e deixar o acaso te encontrar durante o dia, vai saber o que é ter extrema felicidade que dura segundos. Acaba rápido! por isso tem que estar atento ao toque dessa dama que não avisa se vai estar ali de bobeira ou não. Ela aparece do nada e te marca com um selo daquele tolo sorriso de esperança de encontrá-la novamente...

terça-feira, 17 de junho de 2008

Ela se foi

Ela se foi e deixou o sorriso de lembrança. Hora difícil para perder alguém que se ama tanto, mas qual é o momento certo de perder alguém? Talvez a melhor maneira de se viver seria a que instigasse o modo de vida em que ninguém tivesse a pretensão de TER as pessoas.
Ela se foi e deixou a certeza de que vale a pena amar alguém com intensidade e respeito. Pra se ter história, pra se fazer seqüência na vida de outros e aprimorar o que temos dentro da casca, aquela parte que não apodrece para alguns.
Não sou capaz de aqui designar palavras de homenagem. Sou parte dela e dela virão outras partes... Pessoa assim não morre nunca.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Fardo fado

Ouvi o primeiro fado na estrada de volta a Lisboa.
Todos têm um fado para cantar porque todos já viveram tragédias amorosas.
Penso que se suportas um fado por vinte minutos, as coisas cantadas são menores que suas coisas vividas. Eis o motivo por eu suportá-los horas e horas e horas.
O fardo que se carrega é mais doído que o fado que se vive.

Detalhe

No canto do quadro uma cena que ninguém percebe. Muito semelhante às nossas vidas. O surpreendente disso é que eu pude ter a certeza por alguns instantes que realmente é possível não enxergar mesmo que a coisa esteja ali estampada na sua frente, gritando como virgem desvirginada. Naquela época deveriam ter viseiras aos olhos como a de certos animais até hoje. Pior que viseira, algo pregado no olho que distorce o olhar para o que se quer ver e ninguém quer ver o insuportável. Estava ali no quadro, o homossexualismo, a critica ao deus inventado, o homem desfalecido de seu poder fálico e absoluto. Estava tudo ali, não enxergado e colocado nos altares das igrejas mais ortodoxas e sérias da época. O gênio não o era por ter pintado sem tintas, mas por ter exposto algo que só o olhar de alguns poderia ver. Mais uma vez a diferença sublime entre o ver, enxergar e olhar...