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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ano Novo.


Em 32 anos, nunca havia me separado da minha família nesta data. Sempre foi importante pra mim a energia dos que eu mais amo na virada, no recomeço de cada ano. É como uma recarga na bateria  a cada vez que nos uníamos e isso me fortificava por dentro.

Mas curioso como que tudo, com o tempo, pode cair na rotina. E aí é hora de você avaliar o que faz, o que gosta e o que te faz feliz. Em todos e mínimos detalhes.

Neste ano, portanto, decidi fazer diferente. Um teste comigo mesma.

Senti a presença de todos, independente da distância. Pude percorrer o rosto e as mãos dadas de cada um, como fazemos à meia noite. Mas percebi que tanto tempo longe, as distâncias deixam de ser físicas e a proximidade prioritária é a do coração...

Isso foi muito importante pra mim. E pulei sete ondas, feliz! e com a certeza de que nada muda quando se trata de amor.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Subidas e descidas




Subidas e descidas são exercícios constantes em minha vida. Riscos naturais de quem anseia por liberdade e intensidade nos dias. As vezes com isso vem quedas e elas chegam a doer. Muito. Outras vezes passam despercebidas e o movimento continua. Sei que subir nem sempre é bom e descer nem sempre ruim e o negócio é cultivar uma certa serenidade para reserva em momentos de tensão de corda. Entendo hoje que descer pode ser proveitoso se eu conseguir parar de olhar a meio metro do nariz e vislumbrar os milhares de acontecimentos que acontecem a volta e em mim mesma. A nuvem anda rápida, a formiga leva o alimento pra casa, o homem trabalha, a célula multiplica. Muita coisa acontece enquanto perco o tempo olhando a um palmo de distância. Dá pra ir além... Hoje quando desci uma grande queda, cheguei lá embaixo com outra cara, energia diferente. Meu sorriso curou a mim mesma com a alegria de poder fazer essa proeza novamente. Pisei no chão, desci tudo que podia, mas isso não me afasta de mirar o céu e agradecer, principalmente.

sábado, 11 de outubro de 2008

Hoje

Ontem passado, amanhã não dá pra saber. Sobra o hoje.
Assisti um desenho animado que me encucou uma questão.
Havia um pergaminho com um segredo secreto que dava poder a quem tivesse o alcance dele, no entanto quando o personagem (no caso o kung fu panda) pegou o tal pergaminho, viu que ele estava em branco.
Procuramos a vida toda por coisas que nos dêem poder, que nos ajudem, que nos tragam sorte... e no final o grande segredo é uma folha toda em branco. Tudo que precisamos está exatamente dentro de nós e de tão perto que está a chave que abre tudo, não enxergamos... entra então outro filme que assisti na semana passada: o Ensaio sobre a cegueira. De tanto não enxergar o que vale a pena na vida, ficamos cegos sem saber como e até quando. Cegos, somos quase bichos...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tempo

Sempre me confortou ouvir que pra tudo há um tempo. E eu, sempre precisando escutar mais e mais esta afirmativa, porque tenho pressa de viver. Esperar não é ficar de braços cruzados, é esperar semeando, cultivando uma idéia para transformá-la em ação. Uma idéia presa é uma idéia morta e essa não faz sentido para mim. Os dias estão passando, acontecem muitas coisas, turbilhão de coisas inclusive, e eu continuo esperando que algo aconteça. Tem que acontecer... porque não suporto a sensação de ser um cachorro que corre atrás do próprio rabo pra ocupar o dia.

domingo, 5 de outubro de 2008

Trinta anos

Amanhã eu acordo com trinta anos. É diferente a pronúncia, mas não sinto nenhuma mudança por ser troca de década. Não sinto mas quero mudança. Por ser troca de década, ou de dia, ou de noite. Quero mudanças na minha vida e um arsenal de coisas boas acontecendo. Até aqui vivi os meus dias com muita vontade e determinação. Além daqui quero viver os meus dias com muita vontade, determinaçao e realizações. Quero nova década de alegrias diárias, sonhos inusitados, amor. Quero uma base sólida espiritual em tudo que eu fizer. Quero a oportunidade de não ser tão dura comigo mesma e ir mais leve, ao encontro de tudo aquilo que está planejado pra mim: ser feliz...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sempre é tempo de aprender



Meu primo Rafael, dois aninhos, fazendo sanduiche.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Medo

Quando você tá com medo e encontra alguém com mais medo que você em uma mesma situação, você enfia o seu medo entre as pernas e ajuda o outro. Não sei como, mas acontece. Aconteceu comigo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O Corpo

" O filósofo grego Heráclito foi o autor do famoso comentário: não podemos entrar num rio duas vezes no mesmo lugar, já que ele está em constante mudança com a chegada de novas águas. O mesmo acontece com o corpo e todos nós nos parecemos muito mais com um rio do que com qualquer coisa petrificada no tempo e no espaço.

Se você pudesse ver seu corpo como realmente é, nunca o veria repetir-se. Noventa por cento dos átomos de nosso corpo não estavam nele há três meses. De certa forma, a configuração das células ósseas permanece a mesma; no entanto, átomos de todos os tipos atravessam livremente as paredes celulares, o que significa que adquirimos um novo esqueleto a cada três meses.

A pele se renova a cada mês; adquirimos novo revestimento no estômago a cada quatro dias com a renovação constante da superfície que entra em contato com os alimentos a cada cinco minutos; as céluas do fígado se renovam de modo mais lento,mas novos átomos flutuam tranquilamente através delas, como a água do leito de um rio, fabricando um fígado a cada seis semanas. Mesmo no interior do cérebro, cujas células não são substituídas depois que morrem, o teor do carbono, nitrogênio, oxigênio etc. é hoje inteiramente diverso do de um ano atrás.

O corpo humano continua parecendo o mesmo, dia a dia, mas através de processos de respiração, eliminação e outros vive em constante sistema de troca com o resto do mundo..." (Chopra, Deepak. A cura quântica.)

A cada dia você pode ser alguém diferente...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Desconforto

A vida tem coisas estranhas, mas que ensinam muito. Foge às vezes da nossa capacidade de entendimento. Um dia eu estava na Suiça, comendo chocolate e comida tailandesa, no outro eu estava no hospital Julia Kubitchek numa maca no corredor sem colchão, tábua fria que doía a coluna. Com máscara, oxigênio e medo, as lágrimas escorriam dos meus olhos por várias coisas. Olhava pro lado e via o sofrimento alheio, olhava pra mim e via a vontade daquilo tudo acabar. Médicos, enfermeiros, assistentes, vinham tratar de um pulmão, de outra vesícula, do pé quebrado, mas não vinham tratar de gente, da gente. Gente não merece essas coisas, por mais filha da puta que a pessoa seja. Vi que todos somos iguais, e eu já tinha aprendido isso bem antes. Vontade de ter tido força suficiente pra não deixarem o velho daquele jeito, a menina daquele outro e eu assim. Enfim, estamos em época de eleição e vamos colocar lá "em cima" as pessoas que vão esbarrar nessa maldita política pública que nós temos. O pior que vamos eleger o cara que tá na lista do mensalão, o que financiou com dinheiro público a candidatura de outro, etc. Porque política não interessa ninguém, sofremos então as consequências. Gostamos do SUS, da falta de educação, da violência e como diz uma amiga minha, pagamos uma empregada doméstica pra ficar o dia todo em nossas casas enquanto os filhos dela ficam sozinhos na rua da favela. Isso é conforto. E tudo isso me causa grande desconforto. Não é a toa que não conseguem pegar fácil o meu sangue nos exames, porque o que eu devo ter na veia deve ser outra coisa...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Recomeço

Quando eu voltei da Europa despertou uma vontade grande de não morar mais no Brasil. Inúmeros fatores: respeito, justiça, honestidade, confiança, segurança e dignidade. Valores que no meu País estão cada vez mais esquecidos. Eu gostei de pagar o ônibus e ninguém me cobrar a passagem, gostei de andar na rua sem medo de alguém me pegar, gostei do respeito no trânsito, na rua, nos espaços.

Resolvi então ir embora para outro lugar: a Austrália. Tenho amigos queridos por lá que seriam minha referência no momento difícil que eu estava. Comecei a juntar os papéis, a organizar os passos para o visto. Numa agência escutei: "a única coisa que você não pode ter para ir para a Austrália é tuberculose, porque eles desconhecem o tratamento da doença e não tem nenhum caso no País. Está tudo bem com seus pulmões ne?". Óbvio que estava, pensei.

Os dias foram passando, e cada vez mais eu me dedicava a procurar coisas sobre o curso que eu faria no outro lado do mundo. Já não saía muito do quarto, queria que passasse logo os dias e que chegasse a hora de embarcar. Parecia uma fuga. Mas era mesmo e eu tinha todos os motivos pra querer fugir daqui. Não ia pagar um preço tão alto de deixar minha família aqui à toa.

Até que os dias foram ficando longos demais. Estava incomodada com minha falta do que fazer, uma vez que sempre fui de fazer tanta coisa de uma vez só. Decidi atender umas crianças num abrigo aqui perto de casa, até o momento de ir embora. E no primeiro dia de trabalho, senti calafrios e um pequeno mal estar. Cheguei em casa, coloquei o carro na garagem e fui para o meu quarto. Não consegui chegar até minha cama...de repente uma falta de ar absurda, muita tosse e muito vômito. Fui levada para o hospital, tomei um pouco de oxigênio e já estava me preparando para voltar quando o médico disse: "Renata? está bem?". Estou sim, já quero ir embora. Pode não querer esse remédio para o vômito porque já passou? Ele disse: " Não, vai ser necessário tomá-lo mais um pouco." Pensei: nem podemos escolher o que achamos ser melhor pra gente, mas paciência, esperar o outro pra me liberar. E o outro veio. Dirigindo-se à minha mãe disse: "Como ela chama?" Eu disse: Renata! "Ó, seguinte, vou ter que te internar, seu raio-x não veio bom não". Falei: Mas eu estou bem, posso ir pra casa e voltar amanhã? Ele disse que não...

E aí começou uma história difícil, mas muito importante. No outro dia cedo, eu estava isolada, com pessoas usando máscaras pra chegar até a mim, e com o recado que um pneumonologista viria me visitar em breve. Ele veio, conversou comigo e disse: "Renata você tem um quadro avançado de tuberculose, vamos ter que fazer alguns exames". Eu estava com o oxigênio e o aparelho de nebulizador no nariz. Tirei os dois e falei com ele: Tuberculose?!? Tô no século dezoito? E ele já foi logo voltando com o aparelho pro meu nariz.

Dessa parte até a que estou hoje, gostaria de passar uma borracha. Esquecer os dias de cama, de vômitos, de fraqueza. O importante é que tive mais de 26 dias para pensar no porquê de tudo isso comigo. Como eu tinha tantas lesões nos pulmões e como isso foi se alastrando dentro de mim. Parei de perguntar o porquê, e comecei a bater no pra quê! E fui encontrando muita sujeira que eu guardei debaixo do tapete, muita mágoa, tristeza, decepção. O tratamento iniciou e fiquei internada três vezes por conta dele. Os remédios pra mim eram como bombas que explodiam a doença mas todo o meu organismo também. E eu só vomitava, vomitava, vomitava.

Nesses dias, apareceu muita gente pra ajudar. Uma ajuda que não necessariamente tirava o meu vômito ou a minha perda de peso ou minha fraqueza. Mas ajuda humana, que me fazia acreditar que aquilo tudo ia passar uma hora. Minha família é única, especial, diferente. Meus amigos são preciosidades que não se encontram mais por aí. Algumas pessoas seguravam minha cabeça enquanto eu vomitava, e essa ajuda pra mim era a maior do mundo naquele momento, porque eu de tão fraca, não conseguia segurar o corpo. Outros, faziam preces em silêncio, abastecendo o meu organismo de energia que eu precisava tanto. Formou-se uma grande corrente, que eu não tenho noção da dimensão.

Fui internada novamente e descobriram uma sequência de coisas... entre elas uma hepatite medicamentosa muito forte. Suspenderam então todos os remédios que eu tomava. Só da tuberculose eram seis. Foi aí que comecei a me alimentar novamente. Tirados os demônios que me bombardeavam, pude comer. Passei fome, com vontade de comer, com comida, sem poder segurar no estômago. Fome dói, nunca imaginei que fosse sentir isso.

Depois de biópsia, tubo no pulmão, exames, furos, injeções e vômitos, veio a melhora. Uma melhora muito rápida, uma sensação estranha que não consigo descrever. Mas era uma vontade de comer tudo, de viver tudo, de andar dentro de casa, sentar na cama, tomar banho sozinha. Uma renovação que mudou meu quarto, retirando lembranças de um tempo que não quero mais lembrar, mudou meu pensamento em relação aos pobres humanos que eu tinha raiva, mudou minha percepção do meu corpo e mente. Vi que a medicina ainda é muito primitiva, mesmo com tanta tecnologia. Ela não trata uma pessoa, trata uma coisa na pessoa sem se importar o que tudo na pessoa vai sentir. vontade de gritar: EU NÃO SOU SÓ UM PULMÃO. PAREM DE ME MATAR TENTANDO SALVAR. E eu gritei. Procurei terapias alternativas, tratamentos diversificados. A doença sumiu do mesmo jeito que apareceu: do nada. E agora estão investigando que tipo de PNEUMONIA é essa que eu tenho.

Esses dias foram um tempo difícil mas posso dizer com certeza absoluta que foi o tempo mais importante da minha vida. Onde pude fazer escolhas que me deixaram novamente de pé. Nada além da sua saúde tem importância quando você está achando que vai morrer. Nada. Nem trabalho, nem dinheiro, nem namorado, nada. E quando você volta desta experiência, volta diferente, mais forte, equilibrado. Os desejos são coisas simples: segurar o sobrinho no colo, ver a luz do sol de pé, tomar água no filtro, comer sem ter que escorar. Escrever.

Não cheguei ao final do processo, mas estou no meio de uma transição. Um ciclo de muitas coisas difíceis está se fechando e eu já vejo a abertura de outro aqui dentro de mim. Estou no caminho, bem mais leve que outros já passados. Bem mais feliz também. Lembrei da frase do Jung, que um amigo me escreveu: "Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro desperta"...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

De volta

Estou de volta e às voltas com a sedenta vontade de viver.
Saudade da escrita, de andar na rua, de sentir o sol.
Em breve novos escritos e nova vida...

domingo, 3 de agosto de 2008

Pedido

Vi que eu estava pedindo errado. Achava que tudo que eu estava recebendo era "lenhada". Pedia alívio e vinha dor; Pedia força e vinha fraqueza. Não entendia e duvidei. Mas ontem, resolvi mudar o pedido. Agradeci. Muitas vezes a doença é uma oportunidade única de se conhecer e as dificuldades... bom, as dificuldades ensinam de toda forma. Parece estranho e hipócrita agradecer por uma coisa ruim, mas tudo tem os dois lados. E ontem aprendi: Se tudo é escolha, por que não escolher o melhor lado?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Enxergar, ver e olhar.

(Escrito em Valadares, março de 2007)

As vezes tenho vontade incontrolável de ver além. Quem dera uma “espada justiceira com visão além do alcance”. Mas tranqüilidade me parece ser a visão do que nos é possível, exercício de paciência pra quem escuta além do alcance.

De tanto querer ver, encontro meu sossego na imagem congelada do outro que a minha máquina fotográfica captura. As minhas lentes são as conjuntivas do meu olhar, que pesca o outro que se faz em mim. Retrato o meu olhar, no outro.

Em Pedra Corrida, faço o exercício desse olhar. Num primeiro momento vejo, depois enxergo e por fim olho. Vêm à minha cabeça palavras de um texto do Freud: Necessidade, demanda e desejo. Tríade importante das nossas vidas. Faço analogia... Ver é uma necessidade fisiológica, coisa que nos permite captar o externo. Enxergar é um pouco mais que ver, é aquela visão de quem está procurando alguma coisa especifica no meio de tantas outras e por fim vem o olhar. Esse não é da ordem da fisiologia, não é da ordem da necessidade, nem da demanda de enxergar. O olhar é da ordem do desejo, particular e subjetivo de cada um. O olhar é seguido do que o nosso desejo desperta, em nós e no outro. E apesar de ter a necessidade de ver, e a demanda de enxergar, faço valer o meu olhar pelas lentes do meu desejo. É aquilo que só associado à palavra viva descreve o que ele diz. Palavra viva é aquela proferida da verdade de cada um.

De uma cadeira de Pedra Corrida vejo uma porta, enxergo um lugar e olho as pessoas. Vejo a menina que foi amassada por um carro, enxergo o pânico e olho a vontade dela em viver, amarrando os significantes que a compõe, tão pequena ainda. Ela me diz em uma brincadeira: "cuidado! Cuidado com o carro rápido na rua! Faz cicatriz na cabeça!" Essa mesma menina cai da bicicleta, vê o joelho ralado, ensaia um choro, vira para um lado, para o outro e olha pra ela mesma. Rapidamente, monta na bicicleta e sai andando com partes tortas, tremendo as mãozinhas no guidão. Eu vibro, silenciosamente no meu canto. Ainda que ela tenha medo, ela caminha... pequena guerreira, pequena e grande menina.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Volta ao mundo...

Danilo, um amigo, vai dar volta ao mundo de bicicleta. Fiquei tão empolgada que resolvi dar volta ao bairro pra sentir o drama. Caramba... empolguei e fui andando, andando... passei no banco em outro bairro e continuei andando...quando cheguei em casa, achei que ia colocar os pulmões pra fora. Fiquei pensando que tenho pressa em realizar as coisas. Ao invés de ir ali na padaria, começar com um singelo quilômetro, não! Vou logo querendo a estrada real. Mas tudo bem, vi que consigo apesar da dificuldade em respirar depois e amanhã inverto o processo: vou gradativamente até saber do meu limite. Não deu, paciência... hora de parar. Saber do próprio limite é importante, ainda que ir além tenha os seus encantos. Enfim, não deu pra avançar muito mas desconheço onde posso chegar se eu quiser ir.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Nada

Eu tive um professor na Psicologia que era meu guru. Não pelo que ele dizia: "Viemos do nada, vamos pro nada! Nasceu, tá fudido!". Não por isso, mas pelo que ele sabia. Aprendi mais com ele sobre a Psicanálise que meus professores todos juntos. E ele odiava a Psicanálise... mas sabia que eu não e bastava para querer me ensinar. Ele me disse uma vez que viver era como escalar o monte K2: uma dificuldade sem fim. Enfim, meu guru tinha razão em algumas coisas, não em todas. Viver é escalar um monte K2 por dia! Mas não foi isso que pensei em escrever nesse momento. Pensei no nada, o que ele disse que viemos e vamos. Se eu pensasse assim, e confesso já ter pensado, eu preferiria nascer e viver dois minutos só. Pra que ficar na peleja tanto tempo? A existência não pode ser apenas isto e o nada ainda assim me aflige. É que nos meus dias sempre acontece alguma coisa de diferente, de novo, inusitado. Aqui, nessa cidade não acontece nada e esse nada me irrita profundamente. Na verdade, enquanto escrevo, milhares de coisas acontecem em mim, no macro, no tudo. Estou tão sem lógica quanto o meu guru hoje.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Intensa a mente

Meu pior defeito é viver como se a semana que vem não fosse existir. É ter pressa por momentos bons e planejar pouco a longo prazo. Tem gente que acha que é imortal, eu não. A cada dia estamos mais perto do fim que do começo e isso me deixa com gana de viver intensamente. Meu grande defeito é viver com pressa, mas veja bem: pressa não é correria. Tenho pressa por andar no mato, mas não tenho pressa quando estou no mato. Sou rápida e tranquila ao mesmo tempo. Paradoxo eterno de um vulcão que brota em serra distante e serena. Pra mim, a vida é mais simples do que ouço por aí. Pode ser que vivo no equívoco de um tempo que não seja o meu... Por exemplo: posso planejar anos de um trabalho, mas a minha vida não. É que se eu me for, o trabalho continua. Um não depende do outro para existir e todos somos substituíveis nesse ponto. Quem acha que não, é demasiadamente prepotente. O que é insubstituível é minha vida, minhas histórias e meus dias. O desejo que eu sinto hoje e a espera que não tem fim são insubstituíveis também. Pensei que quando eu crescesse ia me prender mais ao que deveríamos ser. Minha felicidade é exatamente ser desprendida disso e de no meio de um tempo em que tudo precisa ser decidido, parar, escutar o vento soprando e olhar pro nada num foco distorcido de plenitude. Tenho pressa de viver e de quem queira viver comigo.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Vez e voz

Noite dessas sonhei que tomei um tiro na garganta. Segurava pra estancar o meu sangue e de repente resolvi tirar a bala como se fosse cabelo encravado. Tirei e acabou o buraco, o tiro, o matar. Ninguém se atreva a calar a minha voz, nem sonhando!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Mudança

Foram tantas que já perdi as contas. Lembro de uma em que eu tinha apenas duas mochilas de coisas empoeiradas pelo povoado de Igicatú; Outra, a cada coisa tirada do lugar parecia que havia uma coisa tirada de dentro de mim. Em cada mudança procuro deixar pra trás o que já era e seguir descobrindo o novo lugar. Mudar é característica exclusiva de ser humano e fico a pensar que a principal mudança não é a de um lugar para outro, mas dentro aqui do que eu sou. É certo que o espaço influencia na qualidade de vida das pessoas, mas cada vez mais procuro cuidar de um espaço que ainda não é totalmente conhecido e vivenciado. Custa muito explorá-lo, organizar as coisas dentro, torná-lo harmônico. Mas olha, não há mudança melhor que aquela que nos deixa livres e mudados por dentro...

sábado, 21 de junho de 2008

Postura

Há alguns meses descobri uma doença rara, auto-imune e degenerativa.
Pensei por algum tempo que não fosse verdade, que os exames estivessem errados e que nada aconteceria. Alguns dias depois não conseguia me mexer quando levantava pela manhã. Doía muito... quase todas as minhas articulações. No entanto, a medida que fui entendendo sobre a doença, ela parecia menor. Antes um monstro que assustava, hoje uma possibilidade de qualidade de vida. Curiosamente é uma doença que acontece com maior frequência em homens. Devo ser muito macha mesmo para ter isso.
Os dias foram passando e encontrei alento no meu companheiro na época, em meus amigos e alguns familiares que souberam a seu modo. Cura, por enquanto não tem, mas quando me lembro da primeira médica que fui vejo que a medicina está longe de saber do que acontece exatamente no corpo humano... Por isso aposto tanto na mente.
Ouvi falar em cadeira de rodas com 29 anos e isso não era justo também. Não naquele momento, topo da carreira e da vida. Por fim, vi que não seria o maior problema se isso acontecesse, o maior problema seria desistir de tentar tudo que tivesse. Tudo é pouco, mas é muito. O que me deixou muito triste na época foi o fato de ser uma doença auto-imune. Era como eu me voltar contra mim mesma. Inaceitável por esse lado, mas compreensível tendo em vista o modo de vida que sempre levei, preocupada com coisas de trabalho, viciada nele.
Bom, hoje é diferente. Tenho dores mas não me consomem mais como antes. Pedi ao céu que me ajudasse, e acredito que me ajudou muito. A espondilite anquilosante é hoje um nome feio, mas não um bicho de sete cabeças mais. Tento todo dia não deixar que aconteça o que diz a internet, os médicos e os livros.
É muito interessante como você começa a valorizar coisas que não fazia antes: subir escada correndo, correr, segurar criança no colo, ficar confortável na cadeira do cinema. Cuido mais de mim hoje, graças a espondilite. De tudo, não foi pra me deixar torta que isso aconteceu, mas acredito que para me manter ereta e com postura diante da vida e das coisas...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Importante

A perda não é o mais importante da história.
O que é realmente importante é o que se faz com ela.